Três trovas não novas 5

Por Declev Dib-Ferreira em 03/04/2008

Os meus grandes defeitos

Que antes não os tinha

É não ter defeitos

E esta modéstia minha

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Um dia me perguntaram

Qual era o meu defeito

Disse que se enganaram

Porque eu era perfeito…

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De feito nobre

Meus pais em seu leito

Capricharam nos “conformes”

E me fizeram sem defeito

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    O cara que não gostava de enterros

    Por Declev Dib-Ferreira em 29/03/2008

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    Ele não gosta de enterros. Fica nervoso, sua, não sabe o que dizer à família, sempre dá vexame. Por isso ficou quase transparente quando soube da morte do primo. Menos porque era primo, pois estavam meio afastados, muito tempo sem se ver, do que pela perspectiva do enterro. “Tem que ir, família é família!” sentenciou a mãe, e completou: “e lembro muito bem de quando vocês eram crianças e ele veio ao enterro do seu cachorrinho de estimação”. É, tinha que ir, não queria ser injusto.

    Para não começar errado, foi de terno negro, bem alinhado.

    Lá chegando estavam todos de roupa informal, coloridas, alguns até de bermuda e camiseta. O coração bateu forte. Foi falar com outro primo. “Ele pediu à mãe, quando moribundo, que não queria enterro com cara de enterro, que as pessoas viessem com roupas coloridas, não te avisaram?”.

    Não avisaram. Até o destino prega peças para ele em enterros.

    Foi falar com sua tia, a mãe do morto. “Meus parabéns!”, ele disse. Nunca sabe o que dizer nessas horas. Confundiu as frases, essas frases decoradas que usamos nos mais diversos eventos: “Parabéns, você merece!”, “Muitos anos de vida!”, “Tudo de bom!”, “Espero que sejam muitos felizes!”, essas coisas. Sua tia parou de chorar e olhou para ele, assim como quem estava por perto e ouviu.

    Saiu de fininho; se tentar consertar, piora.

    Durante o velório estavam todos sérios, consternados, muitos chorando, se agarrando ao caixão e ele, nervoso, pensando no que mais poderia acontecer, não conseguiu controlar, começou a rir de nervoso (acontece com algumas pessoas, com ele, em enterros). Não estava conseguindo nem disfarçar, começou a ficar vermelho, colocou a mão na boca, tentava se controlar quando um de seus primos o abraçou chorando e disse: “não chore primo, todos vamos sentir falta…”. Aí ele não agüentou, soltou uma gargalhada – riso nervoso, eu já disse – que ninguém entendeu. Pararam de conversar os que estavam conversando, de chorar os que estavam chorando, de andar os que estavam andando, todos olharam para ele ao mesmo tempo.

    Sentindo-se o alvo das atenções, fingiu um desmaio.

    Só assim conseguiu parar de rir. Murmúrios, cochichos, até risinhos ele ouviu, mas ficou ali no chão, estático. Vieram socorrê-lo, deram tapinhas no rosto, trouxeram água. Fingiu acordar: “o quê?… que houve?…”. O colocaram na cadeira. Fingiu melhorar, mas por pelo menos quinze minutos, todos ali se esqueceram do morto. Depois da cena disse estar passando mal e foi embora. Nem viu o enterro.

    Estava ficando cada vez mais nervoso com velórios e enterros.

    No dia seguinte sua mãe ligou chorando, dizendo: “filho… minha irmã que estava na Europa há três anos…”. Ele teve um ataque cardíaco.

    Morreu sem ouvir a mãe terminar a frase: “…vai chegar amanhã para nos visitar!… filho?…FILHO???…”.

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    Felizes são os atores…

    Por Declev Dib-Ferreira em 27/03/2008

    _________________________________________________________________

    Felizes são os atores

    Que podem tirar de si

    De dentro

    Do fundo

    Tudo o que lhes oprime

    Podem ser o mundo

    Chorar as dores de seu peito

    E dizer que é de outro

    Cuspir sua raiva

    E dizer que é de outro

    Podem ser tantos, tantos e tantos

    Sem serem tachados

    De loucos

    Podem ser loucos

    E nunca o serão.

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    Do outro lado; crônica de um rapaz todo esquerdo…

    Por Declev Dib-Ferreira em 26/03/2008

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    Eu Devia ser canhoto. Não sei como consigo escrever e fazer outras tantas coisas com minha mão direita (grande mão direita!!!).

    Pode ser coincidência, ou pode ser até que eu fique procurando mais e mais coisas para corroborar a minha hipótese, mas o fato é que quase tudo o que acontece comigo, é no lado esquerdo. Digo quase tudo porque pode haver coisas que não me lembro.

    Não sei nem por onde começar a lista.

    Tenho um problema na vista. Um não, mas vários. Por exemplo, eu não tenho firmeza na vista, minha visão treme toda a não ser olhando para o lado direito. Claro que para o lado esquerdo treme. Já me falaram que foi “torcicolo de parto”. Já viu alguém ter “torcicolo de parto”? Acho que pensaram que eu era tampa de rosca! Além disso tenho astigmatismo nas duas vistas. É lógico que a vista esquerda é bem pior.

    O único corte de que me lembro que tenha ficado uma cicatriz em meu corpo foi conseguido descascando cana. É no dedo indicador… da mão esquerda.

    A minha canela esquerda é cheia de marcas. Por pura coincidência ou força do destino já a machuquei várias vezes. Teve uma vez até que deu uma infecção e ela ficou cheia de bolotas de pús; parecia uma obra de arte.

    Lá pelos meus quinze anos estava chupando cana (de novo a cana) quando um dente incisivo superior se quebrou ao meio. O esquerdo. O mesmo que tempos antes havia me feito sofrer numa cadeira de dentista ao realizar um tratamento de canal.

    A pouco tempo estava comendo pipoca, dei uma mordida em um milho mais duro. Joguei fora o “milho”. Senti algo estranho na boca. Quando olhei no espelho, havia quebrado um pedaço do molar inferior. Esquerdo.

    O meu… você sabe o quê… é virado para a esquerda.

    Na política eu sou de esquerda, graças a Deus.

    Estou com alguma coisa me incomodando no joelho esquerdo. Sempre que vou me agachar ele estala, e quando fico muito tempo de pé ele incomoda.

    A única coisa que quebrei em meu corpo em toda minha vida foi num campeonato de jiu-jitsu (sim, já fiz algum esporte!): o braço esquerdo.

    Minhas orelhas são diferentes. Uma é mais para dentro que a outra. Mas na verdade não sei qual seria a forma “certa”, não veio manual.

    É. Não me lembro de mais nada, mas só para constar: quando durmo com alguém na cama, eu prefiro ficar do lado esquerdo.

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