Textos para a Categoria ‘Mulheres’

Entrevista com o louco

Por Declev Dib-Ferreira em 04/11/2007

Hãn? Meu nome? Não sei… não lembro mais…

Hãn? Minha casa? É… o hospício não é tão ruim. Aqui me sinto protegido; é sossegado, tirando os berros casuais de alguns colegas.

Hãn? Sim, sim, sou bem tratado.

Hãn? Visitas? De vez em quando recebemos as visitas de algum anjo. No gramado há alguns unicórnios e duendes, mas não são todos que conseguem vê-los.

Hãn? Solidão? Não, não… eu tenho um bichinho de estimação, o Gotchgotch. Ele não é daqui, é de outro planeta; caiu aqui no terreno numa cápsula espacial.

Hãn? Ele come ramiscabrini com molho menesquênsis.

Hãn? Quando cheguei aqui? Há alguns milênios, acho…

Hãn? Porquê vim para cá? Não sei, acho que me achavam normal demais para ficar no mundo louco lá de fora.

Hãn? As últimas coisas de que me lembro antes de vir prá cá? Não me lembro de muitas coisas não… lembro de uma mulher… e lembro de que eu falei um dia: “nem que seja a última coisa que eu faça, eu ainda vou compreender essa mulher!”…

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Na mesma linha:

a) http://www.fiapodejaca.com.br/2007/11/03/a-entrevista/

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    O cara, a amiga e a esposa

    Por Declev Dib-Ferreira em 02/11/2007

                Ele é apaixonado pela esposa. Vivem bem, têm casa, carro, boa comida, freqüentam bons restaurantes, cinema, teatro. Nada de muito luxo, mas uma vida estável. Não têm filhos, mas pretendem ter, não um, mas três. É para ter uma família grande, estão acostumados com isso. Muitos irmãos, tios e primos de ambas as partes.

                Ele tem também uma grande amiga. É uma amizade meio paixão, sei lá. Se gostam muito. Nunca aconteceu nada, creio que nem desejo por parte dos dois. São como irmãos que se dão muito bem. Ela sabe tudo da vida dele, seus desejos, anseios, dúvidas, seus medos, tudo. E vice-versa. Se conheceram bem pequenos e logo de início surgiu essa grande amizade. Já dormiram até na mesma cama, e podiam dormir mesmo abraçados, pois não acontecia nada.

                É lógico que dormir na mesma cama não acontece mais depois que ele casou. Sua esposa, para seu desgosto, odeia esta amiga. E vice-versa. É uma situação complicada. As duas nem se olham. Se uma sabe que a outra estará em tal lugar, não vai. Como explicar para a amiga que, como as duas não se gostam, ele nem sempre estará disponível como antes estava, para aquelas longas conversas, aqueles “porres + choradeiras” que só dois grandes amigos sabem como é? E como convencer a esposa da falta que ele também sente?

                Esposa, amiga. Amiga, esposa. Essas duas mulheres o estavam enlouquecendo. E de tanto enlouquecer, fez o que se espera de um louco: uma loucura. Pelo menos foi o que pensaram os conhecidos quando souberam. Convidou a esposa para ir a uma festa na qual a amiga estaria. Cansou de se dividir. Resolveu que teriam que se entender. Teriam que se falar – ou se aturarem em um mesmo ambiente, pelo menos. Quando a convidou, a primeira pergunta da esposa, em tom de ironia,  foi: “sua amiguinha vai?”. “É claro que não!”, respondeu.

                Foram. Chegaram antes da “amiguinha”. Estavam bebericando algo quando esta chegou. Ouviu-se um murmurinho, pessoas cochichando, espantadas com o final que poderia ter. Já tinham visto algo semelhante e não gostaram nem um pouco. Alguns ficaram até meio gelados. Ele, o amigo de uma e esposo da outra, foi o que mais gelou. Sua mulher estava conversando distraidamente, de costas para a entrada principal quando virou-se e a viu entrando. O copo caiu de sua mão, chamando a atenção da outra que, quando a viu, quis ir embora, impedida por amigos. A esposa, depois do limpa daqui, enxuga dali, quis dar um escândalo, gritar com o marido, sair correndo, mas se conteve. Tiveram que se encontrar. Antes de se encararem, as duas olharam o responsável pelo encontro como se quisessem fuzilá-lo. Chegou a hora: “oi…”, “oi, tudo bem?”, “tudo”.

                E foi só. Todo esse diálogo foi feito de semblantes fechados e singelos balançares de cabeça. A festa transcorreu na maior serenidade, uma aqui, outra lá, na medida do possível. Ele até estranhou não tocarem no assunto… na festa. Em casa levou o maior puxão de orelha desde o casamento. Não deu uma palavra, deixou a esposa desabafar. Naquela noite não teve nada. Como castigo.

                No dia seguinte ainda ouviu um pequeno sermão da amiga pelo telefone. Ela jurou que se fizesse isso de novo, cortaria relações. Ele prometeu que não faria. Mas não cumpriu. Promoveu vários outros encontros. Passava noites e noites em greve, mas valia à pena. A amiga sempre jurava não lhe falar mais. Nunca cumpriu.

                Foram tantas vezes que as duas começaram a travar conversas    amigáveis – que chegaram a até cinco frases cada uma! Num desses encontros, no fundo, já esperados, chegaram a ficar conversando por mais de meia hora. Em casa ela comenta: “Sabe aquela tua amiga?”

                - Qual?

                - Você sabe…

                - Ah…, o que tem?

                - Até que tem uma cabeça legal, concordamos em vários pontos. Foi bom ter conversado com ela.

                Ele não perguntou nem falou mais nada. Foi dormir com um sorrizinho de vitória no rosto. Ouviu quase que o mesmo comentário da outra. Também não disse uma palavra. Quis dar tempo ao tempo.

                No fim de semana será seu aniversário. Pensou se chama ou não a amiga para o almoço. Antes de perguntar se seria conveniente, a esposa fala: “Por quê não convida sua amiga? Afinal, é o seu aniversário.” Chamou. Ela a princípio relutou, mas disse que iria.

                No dia, depois que a convidada apareceu, ele que teve que recepcionar as outras pessoas e  servir todo mundo. Sua esposa ficou conversando com ela todo o tempo, a essas alturas, amiga dos dois. Mostrou a casa, todas as fotos que existiam, deram boas risadas. Quem se sentiu meio chateado agora foi ele. Se sentiu meio rejeitado, com ciúmes das duas. Mas fazer o quê, não era isso que queria?

                Descobriram coisas maravilhosas uma sobre a outra. Esqueceram os defeitos e tudo mais que as faziam se odiar. Tornaram-se grandes amigas. Ela agora freqüenta a casa  quase  todos  os dias. Ele está satisfeito, tem as duas perto de si como queria, sendo que, às vezes, se sente meio jogado. É só reclamar e receber carinho dobrado, mas logo o esquecem e voltam às conversas, algumas confidenciais.

                Começaram a sair juntas. Sem ele. Cinema, choppinho, praia. Parecem irmãs gêmeas que se adoram. Ele começou a se sentir sozinho. E com razão. Até sexo diminuíra a freqüência. A esposa começou a ficar mais séria dentro de casa, as visitas da amiga começaram a escassear, embora saíssem muito juntas. Sua antiga confidente não está mais ligando para ele, como fazia antes. Quando ele liga ela é fria, distante.

                Ele está preocupado. E curioso. A curiosidade logo se desfez, se transformando  em  estupefação. A  esposa  lhe  contou o que estava acontecendo. Ela estava saindo de casa, iria para a casa da amiga, que a essas alturas não era só amiga. Estavam apaixonadas e iriam morar juntas.

                A amiga lhe pediu para que continuassem amigos. Ele não quis.

     

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    Criação poética do universo

    Por Declev Dib-Ferreira em 22/10/2007

    No início não havia nada.
    E nada havia de haver
    Não tivesse Deus uma idéia fixa na cabeça.
    Primeiro chutou o chão do universo que nada tinha
    Levantando a poeira cósmica,
    Fez bolinhas de areia com as mãos
    Formando os milhares de milhões de mundos…
    Alguns mundos ele deixou apagados
    Outros ele pôs fogo
    Após criar o fogo, claro
    Outros, como bolinhas de gude,
    Fez vagar pelo imenso universo…

    Em um desses mundinhos apagados
    Ele criou muitas das coisas que agora conhecemos
    Ele chorou para fazer as águas
    Ele cobriu com lençol para fazer a noite
    Ele furou o lençol para fazer as estrelas aparecerem
    Colou uma lua linda nesse lençol
    Sempre sem tirar da cabeça
    A sua idéia fixa.

    A lua inspirou Deus…
    Sua idéia era fazer algo perfeito e complexo…

    E ele foi tentando:
    Fez as plantas:
    Musgos, algas, samambaias, rosas (o que o fez ficar mais inspirado), árvores…
    Mas não ficou satisfeito;
    Fez então os animais:
    Vermes, siris, peixes, jacarés, golfinhos, macacos…
    Chegou quase,
    Mas não ficou satisfeito;
    Fez o homem,
    Achou que tinha conseguido!
    Foi descansar
    Mas foi só Deus virar as costas
    Para o homem o decepcionar.
    Também,
    O homem era (e ainda é) tão… bruto, peludo, feio, carrancudo… tão parecido com o animal
    Passou-se muito tempo
    E Deus fazendo e refazendo suas fórmulas,
    Até que
    Criou a mulher.

    E sem saber, aí sim,
    Ele criou um verdadeiro universo.

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    Como conquistar uma mulher

    Por Declev Dib-Ferreira em 18/10/2007

    Após 34 anos de profundas análises, pesquisas, perguntas, experiências próprias, filmes assistidos e outras formas de recolher as mais variadas e confiáveis informações, acho que talvez, quem sabe, quiçá eu tenha entendido como agradar e conquistar uma mulher – e para sempre!

    Afinal, nada pode ser mais simples que a alma feminina…

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    Mãe Árvore

    Por Declev Dib-Ferreira em 16/10/2007

    Esta é uma poesia-prosa, mais ou menos grande, mas modéstia à parte, muito bonita.  É uma das que eu mais gosto. Alguns amigues já conhecem, pois… hãm hãm… tirou primeiro lugar num concurso (devia ter só uns dois ou três inscritos…).

    E é também uma homenagem às mulheres, especialmente às mães. Mais uma vez, as mulheres…

    Houve árvores inesquecíveis
    A vida passa, mas elas ficam
    Infelizmente algumas apenas na memória

    Ah, as árvores…

    O que seria de minha infância sem as árvores?
    A caramboleira do quintal da minha avó
    Que caramboleira!
    Grande, mas pequena
    Como uma pequena mulher fofinha
    Seus galhos finos a tornam esbelta quando vista por dentro,
    Onde cabiam todos os meus sonhos
    Lugares cativos meu e de meu irmão nos acolhiam
    Quantas carambolas eu comi
    Agora ela faz parte do meu corpo
    E de minhas lembranças…
    Minha infância já se foi,
    Mas ela está lá

    Teve melhor destino que a goiabeira
    Que no meu quintal deu lugar à piscina
    Mas em minha memória ela ocupa
    Os principais arquivos de tempos idos
    Era minha casa dentro do quintal de minha  casa
    O meu universo quando minhas preocupações
    Eram apenas comer meu lanche longe da mesa e do chão
    Quantas proteínas ela me ofereceu
    Através dos bichinhos dos caroços brancos de seus frutos
    Hoje deito ao sol ao lado da piscina no vazio que ela deixou

    Que saudade…

    Saudade igual à que sinto pela minha “cabeluda”
    Ah, que frutinha gostosa
    Amarela como o sol
    Redonda como as bolas de gude
    Que eu tirava dos “triângulos”  de giz no cimento
    Seus galhos frágeis não me agüentavam
    Mas nada mais eu pedia
    Que suas frutinhas de grandes caroços doces
    Teve o mesmo destino que a goiabeira
    Eram duas irmãs…
    E hoje seu doce vive apenas na lembrança de meu paladar

    Abacateiro que brincava de esconder
    E guardava seus frutos em cima do telhado

    Jameleiro que era artista
    E pintava todo o chão com seu lindo violeta dos frutos

    Todas vivem apenas na lembrança
    Apenas na lembrança…

    Existem outras,
    Como o cajueiro da casa de praia
    Se fazia de difícil,
    Mas subíamos e pescávamos seus frutos nos mais altos galhos
    Este embora vivo também vive na lembrança
    Pois como um parente distante muito pouco o visito

    Que saudade, árvore da frente da minha casa
    Lindas suas flores brancas, suas enormes folhas
    E seus frágeis galhos que se quebravam nos jogando ao chão
    E sua seiva, que pingava como lágrimas de leite

    Leite que brotava como nos seios das mães
    Que vivem apenas na lembrança quente
    De quando as árvores nos pegavam no colo,
    Como mamãe também fazia.

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