Textos para a Categoria ‘Contos’
Por Declev Dib-Ferreira em 29/03/2008
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Ele não gosta de enterros. Fica nervoso, sua, não sabe o que dizer à família, sempre dá vexame. Por isso ficou quase transparente quando soube da morte do primo. Menos porque era primo, pois estavam meio afastados, muito tempo sem se ver, do que pela perspectiva do enterro. “Tem que ir, família é família!” sentenciou a mãe, e completou: “e lembro muito bem de quando vocês eram crianças e ele veio ao enterro do seu cachorrinho de estimação”. É, tinha que ir, não queria ser injusto.
Para não começar errado, foi de terno negro, bem alinhado.
Lá chegando estavam todos de roupa informal, coloridas, alguns até de bermuda e camiseta. O coração bateu forte. Foi falar com outro primo. “Ele pediu à mãe, quando moribundo, que não queria enterro com cara de enterro, que as pessoas viessem com roupas coloridas, não te avisaram?”.
Não avisaram. Até o destino prega peças para ele em enterros.
Foi falar com sua tia, a mãe do morto. “Meus parabéns!”, ele disse. Nunca sabe o que dizer nessas horas. Confundiu as frases, essas frases decoradas que usamos nos mais diversos eventos: “Parabéns, você merece!”, “Muitos anos de vida!”, “Tudo de bom!”, “Espero que sejam muitos felizes!”, essas coisas. Sua tia parou de chorar e olhou para ele, assim como quem estava por perto e ouviu.
Saiu de fininho; se tentar consertar, piora.
Durante o velório estavam todos sérios, consternados, muitos chorando, se agarrando ao caixão e ele, nervoso, pensando no que mais poderia acontecer, não conseguiu controlar, começou a rir de nervoso (acontece com algumas pessoas, com ele, em enterros). Não estava conseguindo nem disfarçar, começou a ficar vermelho, colocou a mão na boca, tentava se controlar quando um de seus primos o abraçou chorando e disse: “não chore primo, todos vamos sentir falta…”. Aí ele não agüentou, soltou uma gargalhada – riso nervoso, eu já disse – que ninguém entendeu. Pararam de conversar os que estavam conversando, de chorar os que estavam chorando, de andar os que estavam andando, todos olharam para ele ao mesmo tempo.
Sentindo-se o alvo das atenções, fingiu um desmaio.
Só assim conseguiu parar de rir. Murmúrios, cochichos, até risinhos ele ouviu, mas ficou ali no chão, estático. Vieram socorrê-lo, deram tapinhas no rosto, trouxeram água. Fingiu acordar: “o quê?… que houve?…”. O colocaram na cadeira. Fingiu melhorar, mas por pelo menos quinze minutos, todos ali se esqueceram do morto. Depois da cena disse estar passando mal e foi embora. Nem viu o enterro.
Estava ficando cada vez mais nervoso com velórios e enterros.
No dia seguinte sua mãe ligou chorando, dizendo: “filho… minha irmã que estava na Europa há três anos…”. Ele teve um ataque cardíaco.
Morreu sem ouvir a mãe terminar a frase: “…vai chegar amanhã para nos visitar!… filho?…FILHO???…”.
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Por Declev Dib-Ferreira em 25/03/2008
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Comecei a me sentir meio estranho… Uma sensação esquisita, sei lá… Era como se eu soubesse mais do que sei, lembrasse mais do que poderia. Como se tivesse recordações de coisas que não vivi. Comecei a me lembrar de pessoas como velhas conhecidas – pessoas que não conheço, pelo menos pessoalmente. Me lembrei e me deu uma certa saudade. Saudade? Tudo bem, conheço-os de nome, gosto de seus trabalhos, já li e ouvi alguns, mas daí a ter saudades?
Me deu de repente uma súbita vontade de casar com a lua. Fui à janela e lá estava ela. Quis pegar uma escada para ir até lá, mas pus o racional para funcionar e me contive. Fechei a janela num tranco, como que a fugir do sentimento. Uma angústia me subiu, como que repensasse minha vida inteira, me dando vontade de mudar. Mudar tudo. Mudar de opinião sobre tudo. Tudo o que pensava, naquele instante já não valia mais nada. Procurava novos valores. A sensação de mudança não passava. Tirei as roupas. Abri o armário, coloquei outras roupas e um óculos escuros. Era noite mas enxergava tudo. Estranho. Me olhei no espelho. Meu cabelo estava grande e me vi com um inesperado cavanhaque, como se há anos não fizesse a barba. Me senti velho, muito velho. Não fisicamente, mas no interior. Me lembrava de outros fatos. Fatos históricos, passados há anos, há milhares de anos… Me senti meio…sábio, meio adivinho, como se já houvera premeditado acontecimentos e ainda fosse capaz de fazê-lo. Me deu um calor. Resolvi tomar um banho. Peguei um chapéu e abri o chuveiro. Nada da sensação passar. O estranho é que comecei a gostar, o que me fez perder o medo da chuva que tinha. Me senti meio maluco, diferente dos outros. Era como se não fosse eu, sabe? Me senti um ator.
Me surpreendi esperando um disco voador , que me faria fugir das mesmices do mundo, quando vi que a terra parou. Só havia eu me movendo. Aproveitei para pegar na guitarra do meu irmão. Embora fosse noite, a terra havia parado mesmo!, então coloquei no máximo volume. Nunca havia tocado guitarra. Toquei como se fosse a guitarra minha amiga, como se já a conhecesse há muito. Creio que fiquei umas duas horas tocando, ao mesmo tempo espantado com o que estava acontecendo. De repente parei. Vi ao longe uma figura luminosa de um trem. O trem veio chegando, chegando… passou por mim em uma velocidade incrível, através de uma estrada que não existia. Voltei ao normal. Já estava senhor de mim.
Pensei: quando acabar, o maluco sou eu; mas acho que ele queria mesmo era tocar uma guitarrinha.
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Por Declev Dib-Ferreira em 24/03/2008
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Ele só vai trabalhar à noite, mas os dias não estão muito bons para ele…
Aliás, a vida não está sorrindo ultimamente para este pobre sujeito. Tem dívidas, muitas dívidas, faz uma dívida maior para cobrir uma menor. Procura outros empregos, mas a vida não está fácil e todos os empregos - até de porteiro - exigem experiência e referências, mas como um novato pegar experiência se todos os empregos pedem experiência?
Seus amigos o abandonaram, estão bem, empregados, com um dinheirinho para a cerveja, mulher e filhos. Não têm tempo para ficar ouvindo suas lamentações ou praticando filantropia. Sente-se só.
Quando numa fase melhorzinha, ele tinha lá o seu fusquinha, velho, mas que o levava com a esposa e as duas filhas para dar umas voltas no fim de semana pelos parques de seu bairro e à praia (por que é de graça). Só que esse carro é muito visado no Rio de Janeiro. Da última vez que fizeram compras de mês (quando o dinheiro ainda dava) e o dito cujo estava cheio de sacolas de supermercado, ao deixarem por um momento sozinho (voltaram para pegar um saquinho de azeitona que esqueceram), foi roubado. Roubado! Com todas as compras dentro. Imaginem o desespero. Não, não imaginem para não caírem em lágrimas.
Pelo menos ele tinha sua adorável esposa e suas adoráveis filhas.
Tinha, porque o mundo quase caiu em sua cabeça aquele dia em que ia fazer uma viagem para outra cidade tentar um emprego e a esposa mandou as filhas para a casa da avó para poder “arrumar a casa” sossegada. Ele perdeu o ônibus e automaticamente a entrevista e o emprego. Não sabe ainda se foi azar ou sorte. Chegou cedo em casa, abriu a porta e por um momento chegou a pensar que a esposa estava passando mal no quarto, pelos gemidos, urros, gritos e sussurros que dava, mas, qual sua surpresa ao ver a cena chocante: a esposa “cavalgando” o padeiro da esquina a quem ele estava devendo há mais de três meses, vestida só com um chapéu de caubói. Não é preciso dizer que toda a vizinhança ficou sabendo… Vocês conhecem bairro de periferia, todos sabem da vida de todos, principalmente quando saem duas pessoas peladas pelo meio da rua - e não são marido e esposa - com um homem de olhos esbugalhados e vermelhos correndo atrás - o marido - com uma faca de cozinha na mão e a cueca do outro na outra. Depois de tudo calmo ela ainda tentou se explicar, dizendo que assim ele, o padeiro, perdoaria a dívida dele, o corno. Ah…, pensou, por isso que o açougueiro, o dono da barraca da feira aos domingos e o diretor da escola das filhas não estavam mais cobrando aquelas dívidas…
Divórcio. A mulher, com a orientação do advogado, declarou em prantos, na frente de todos que estavam ali para ouvir (e eu estava) que o nosso amigo não estava mais “dando no couro” (expressão da própria), não estando, portanto, cumprindo sua função conjugal, tendo ela que procurar outros homens para se sentir mulher novamente. Bem, tirando aquelas duas vezes mês passado que “ele” não subiu, coisa que me contou chorando como uma criança me pedindo segredo (que eu guardei até aqui, espero que você também o faça), isso é uma mentira. Mas ela conseguiu, ficou com a guarda das crianças.
Há uma semana estava sozinho em casa, havia preparado o almoço (meio saquinho de macarrão instantâneo e duas salsichas fritas) quando chegou aquele senhor de terno e gravata, bem alinhado, com a barba bem feita, cabelos cuidadosamente alinhados, com a ordem de despejo na mão. Claro, não pagava o aluguel, água e luz há muitos meses. Estava na rua agora. Ele tinha um pequeno prazo para se mudar, mas foi naquele dia mesmo para casa dos pais. Como esta já era pequena para os pais e o irmão que lá morava, sobrou para ele o sofá da sala e suas poucas coisas foram guardadas no quartinho de ferramentas e outras bugigangas.
Por sorte, lendo o jornal que seu pai comprara, nas páginas de empregos havia um que não exigia experiência - davam treinamento - e ele foi ver. Estava contratado! Era para trabalhar basicamente as noites, teria uma parte do dia para fazer outras coisas. A vida começava a melhorar. Tinha um uniforme, uma roupa especial. No dia seguinte foi para o seu primeiro dia no emprego. Era numa casa, em uma festinha de criança. O resto do grupo já estava lá. Ele vestiu sua roupa, passou a maquilagem e foi trabalhar. Era o assistente, o que estava lá para levar as tortas na cara, cair nas brincadeiras todas que o “astro” do show fazia.
Depois de tudo o que passou por esses tempos, teria de fazer os outros rirem com as trapalhadas e situações embaraçosas que se metia ali no palquinho da festa.
A arte imita a vida, mas não importa, um palhaço é sempre um palhaço.
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Por Declev Dib-Ferreira em 23/03/2008
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Tenório não suportava ser porteiro. Não havia estudado por pura preguiça e, por fim, foi o que conseguiu. Mas mal começou o trabalho já o estava amaldiçoando. Jurou que não iria ser porteiro por muito tempo. Disse que preferia roubar ou até mesmo matar se preciso, mas não seria porteiro.
Foi o que fez. À noite estava trabalhando – ou dormindo no trabalho – e durante o dia ia roubar. Assaltava velhinhos e crianças, pois eram mais fáceis. Não precisava nem usar a arma. Em poucas semanas não agüentou e largou o emprego, já estava ganhando mais com os roubos. “Trabalhava” agora à noite. Assaltos à mão armada, assaltos a residências, matou pessoas, virou bandido perigoso, procurado pela polícia.
Um dia, num cerco policial, foi surpreendido, trocou tiros com a polícia e acabou baleado. Quase morrendo sentiu uma ponta de arrependimento, mas, como que quisesse justificar-se pensou: “Não! Eu não poderia ser porteiro!”. Morreu.
Do outro lado, foi recebido por espíritos que vieram em seu socorro. O mais iluminado, que chegava a cegar-lhe, disse:
– Tenório, temos um serviço para você cumprir.
– Sim, meu Senhor?!? - Pensava estar falando diretamente com Deus; estava chorando.
– Serás, durante dois séculos, o porteiro da casa de reabilitação das almas desvirtuadas.
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Por Declev Dib-Ferreira em 21/03/2008
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Entrei no ônibus, o trocador estava fumando. Reclamei. Senhor, é proibido fumar aqui dentro. “Eu sei, mas todo mundo fuma, ele respondeu, estamos no Brasil, aqui as leis foram feitas para se desrespeitar”; e continuou tragando o cigarro e, creio que propositadamente, a fumaça veio para minha cara. “Mas é você mesmo quem deve dar o exemplo”, eu disse. Ele riu e gritou para o motorista: “aí ó, o cara aqui qué que nós paremos de fumá porque tá trapalhando a respiração dele”. Eu vi quando o motorista deu uma olhadinha pelo espelho, virou para trás e, rindo, deu uma tragada no cigarro que estava em sua mão. E logo no banco de trás dele havia uma senhora com duas crianças, uma de colo. Depois desta cena eu não agüentei, tomei o cigarro da mão do trocador, apaguei em cima da caixa de dinheiro e atirei em cima dele dizendo: “aqui é proibido fumar!”. Várias pessoas observavam minha reação. Uma começou a bater palmas, de repente todo o ônibus fez o mesmo. O trocador saiu de sua cadeira para cima de mim; o motorista parou o ônibus e também veio. Os passageiros me defenderam dizendo que eu estava certo. Começou um empurra-empurra, começaram todos a bater nos dois. Comecei a quebrar o ônibus. Primeiro foi uma lâmpada, depois outra, puxei o sinal até arrebentar a corda, quebrei uma janela. Várias pessoas saíram do ônibus apavoradas, mas os mais irritados, junto comigo, quebraram o ônibus todo. Apareceu um rapaz com uma lata de tinta spray. Ele escreveu no ônibus, bem grande, do lado de fora: “é proibido fumar”.
Que eu saiba, desde este dia, nenhum trocador ou motorista foi visto fumando dentro dos ônibus.
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Por Declev Dib-Ferreira em 03/11/2007
- Ei cara, tô com medo!
- O que é isso amigo? Não precisa ter medo!
- Sei lá… essa rua tá tão deserta…
- Não tem perigo não, sempre tem polícia passando por aqui.
- Hiiiii…
- Tá devendo é?!?
- Eu não! Tô limpo, nunca roubei, nunca trafiquei, não sou colarinho branco, tenho casa, família e trabalho e ainda freqüento a igreja!
- Eu sei, eu sei, eu te conheço… e você sabe que também sou assim, por isso não devemos ter medo. Vamos?
E eles foram por aquela rua escura e deserta, temendo topar com algum assaltante ou animal do gênero.
- Olha lá! Eu não disse?! Vêm vindo dois policiais; não disse que era seguro?
- EI, VOCÊS AÍ; QUIETOS!!!
- …
“Encontrados dois corpos ontem de madrugada cobertos de balas. A polícia desconfia de tentativa de assalto ou guerra de traficantes ou queima de arquivo ou balas perdidas ou suicídio…”
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Na mesma linha:
a) http://www.versoeprosa.com/2007/09/23/capitao-nascimento-para-governador/
b) http://parededebanheiro.blogspot.com/2007/08/eu-e-polcia.html
c)http://mrrogens.blogspot.com/2007/09/ato-pblico-contra-violncia-e-impunidade.html
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Por Declev Dib-Ferreira em 03/11/2007
Estava deitado na beirada da piscina, de braços abertos. Olhava o céu azul com um sentimento misto de admiração pela beleza, e curiosidade e espanto pelos mistérios. Era final de tarde e o sol já estava por sumir no horizonte e o tempo estava bem fresco. A minha posição sugeria que eu queria abraçar aquele azul. Era um gesto inconsciente, mas que expressava o que eu estava sentindo naquele momento.
O sol se pôs e o céu aos poucos escureceu. Havia apenas algumas nuvens esparsas, algumas mais ao horizonte, reluzindo ainda a luz do sol, me saudando com um magnífico espetáculo de cores.
Uma previsível sonolência começou a tomar conta de meu corpo. Meus olhos foram ficando mais pesados e cada vez mais difícil mantê-los abertos. Fui sentindo meu corpo cada vez mais leve, uma leveza gostosa, incontrolável. Eu senti que flutuava; uma ponta de medo que surgiu foi logo dissolvida pela sensação indescritível de liberdade que sentia. Não estava entendendo, mas estava gostando. Me virei lentamente e, ao olhar para baixo, levei um susto, mas estava tudo explicado. Eu vi o meu corpo a cerca de meio metro de mim mesmo, deitado na mesma posição que estava anteriormente. Na verdade eu não estava flutuando, mas o meu espírito havia se separado de meu corpo e eu estava consciente. Me vi subindo, subindo. Percebi que meus dois “eus” continuavam ligados por um brilhante “cordão umbilical”, de umbigo a umbigo.
Continuei a subir devagar, vendo o meu corpo imóvel cada vez mais longe, a piscina ao meu lado cada vez menor, refletindo a luz das estrelas e da lua em sua superfície agora escura. À medida que subia conseguia observar mais coisas ao redor de onde estava deitado. Vi as casas da vizinhança, as árvores, as ruas, as pessoas, inclusive dois amigos, que, certamente não me viram. Vi as luzes das ruas e das casas ficarem cada vez mais fracas, mais fracas, até adquirirem aparência de vaga-lumes. Continuei subindo.
Passaram por mim dois pássaros, voando lado a lado. Creio que perceberam minha presença, pois senti que se afastaram, um pouco assustados. Eu já estava à altura das nuvens. Parecia que podia sentir as gotículas de água tocando em mim, de tão sensível que estava.
Passou um avião, um pouco longe, mas o suficiente para ver alguns detalhes, como as janelinhas com as luzes acesas lá dentro, e uma aeromoça com seu uniforme azul e rabo de cavalo preso por uma fita vermelha. Creio que minha visão se aguçou um pouco. Com certeza os passageiros não notaram minha presença.
Já estava a uma altura que notava a circunferência da terra. Podia ver perfeitamente o horizonte bem delineado e recurvado. Neste instante foi que me surpreendi com o nosso planeta. É um astro flutuando no espaço. Não tem começo, meio ou fim. Não tem em cima ou embaixo. Não tem norte ou sul. Após a visão que tive, privilegiada por sinal, percebi que se viramos os globos terrestres ou os mapas que temos utilizado como padrão mundial, ainda assim continuará correto, pois a terra, vista lá de cima, é única, é linda, é perfeita. Não existe um sistema no universo que indicava se eu a estava olhando de cabeça para baixo ou não. Não existe em cima ou embaixo para o universo, ele simplesmente existe, ele simplesmente é. Lá de cima perdi a noção dos pontos cardeais.
Comecei a girar meu corpo lentamente, vendo a terra primeiramente na posição tradicional, como a conhecemos nos globos. Depois de lado, depois de cabeça para baixo e descobri que é a mesma coisa, não há parâmetros. A terra simplesmente está ali, flutuando. Ela que nos dá sustento, nos dá chão, firmeza, ela mesma não tem o seu sustento. Descobri que o sustento da terra somos nós mesmos. Nós que a equilibramos, pisando aqui e ali, fazendo coisas boas deste lado do mundo e naquele outro também, sem distinção de norte ou sul, leste ou oeste.
A vida estava continuando lá embaixo, eu sabia, mas não me importava. Tentava apenas compreender o universo, e forçava a vista ao longe, tentando achar um fim, uma explicação, mas em vão. O mistério do universo é muito maior do que nós mesmos. É muito maior do que a terra e não nos cabe tentar decifrá-lo. Essa minha “viagem” valeu, pois pude aprender um pouco sobre o planeta que nos dá a vida. Pude compreender que ele somos nós mesmos, que dele fazemos parte; e que podemos ser nele o câncer que destruirá sua vida, ou a proteína que irá construí-la, dependendo de nossos atos.
Após esta conclusão eu abri os olhos, e estava novamente em meu corpo físico.
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Dindin:
a) Quer aprender mais sobre viagem astral? Procure livros e compare seus preços, com o buscaPé.
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Na mesma linha:
a) http://blog.controversia.com.br/2007/07/28/uma-terra-sem-humanos/
b) http://lauravive.blogspot.com/2007/04/o-dia-da-terra.html
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Por Declev Dib-Ferreira em 02/11/2007
Ele é apaixonado pela esposa. Vivem bem, têm casa, carro, boa comida, freqüentam bons restaurantes, cinema, teatro. Nada de muito luxo, mas uma vida estável. Não têm filhos, mas pretendem ter, não um, mas três. É para ter uma família grande, estão acostumados com isso. Muitos irmãos, tios e primos de ambas as partes.
Ele tem também uma grande amiga. É uma amizade meio paixão, sei lá. Se gostam muito. Nunca aconteceu nada, creio que nem desejo por parte dos dois. São como irmãos que se dão muito bem. Ela sabe tudo da vida dele, seus desejos, anseios, dúvidas, seus medos, tudo. E vice-versa. Se conheceram bem pequenos e logo de início surgiu essa grande amizade. Já dormiram até na mesma cama, e podiam dormir mesmo abraçados, pois não acontecia nada.
É lógico que dormir na mesma cama não acontece mais depois que ele casou. Sua esposa, para seu desgosto, odeia esta amiga. E vice-versa. É uma situação complicada. As duas nem se olham. Se uma sabe que a outra estará em tal lugar, não vai. Como explicar para a amiga que, como as duas não se gostam, ele nem sempre estará disponível como antes estava, para aquelas longas conversas, aqueles “porres + choradeiras” que só dois grandes amigos sabem como é? E como convencer a esposa da falta que ele também sente?
Esposa, amiga. Amiga, esposa. Essas duas mulheres o estavam enlouquecendo. E de tanto enlouquecer, fez o que se espera de um louco: uma loucura. Pelo menos foi o que pensaram os conhecidos quando souberam. Convidou a esposa para ir a uma festa na qual a amiga estaria. Cansou de se dividir. Resolveu que teriam que se entender. Teriam que se falar – ou se aturarem em um mesmo ambiente, pelo menos. Quando a convidou, a primeira pergunta da esposa, em tom de ironia, foi: “sua amiguinha vai?”. “É claro que não!”, respondeu.
Foram. Chegaram antes da “amiguinha”. Estavam bebericando algo quando esta chegou. Ouviu-se um murmurinho, pessoas cochichando, espantadas com o final que poderia ter. Já tinham visto algo semelhante e não gostaram nem um pouco. Alguns ficaram até meio gelados. Ele, o amigo de uma e esposo da outra, foi o que mais gelou. Sua mulher estava conversando distraidamente, de costas para a entrada principal quando virou-se e a viu entrando. O copo caiu de sua mão, chamando a atenção da outra que, quando a viu, quis ir embora, impedida por amigos. A esposa, depois do limpa daqui, enxuga dali, quis dar um escândalo, gritar com o marido, sair correndo, mas se conteve. Tiveram que se encontrar. Antes de se encararem, as duas olharam o responsável pelo encontro como se quisessem fuzilá-lo. Chegou a hora: “oi…”, “oi, tudo bem?”, “tudo”.
E foi só. Todo esse diálogo foi feito de semblantes fechados e singelos balançares de cabeça. A festa transcorreu na maior serenidade, uma aqui, outra lá, na medida do possível. Ele até estranhou não tocarem no assunto… na festa. Em casa levou o maior puxão de orelha desde o casamento. Não deu uma palavra, deixou a esposa desabafar. Naquela noite não teve nada. Como castigo.
No dia seguinte ainda ouviu um pequeno sermão da amiga pelo telefone. Ela jurou que se fizesse isso de novo, cortaria relações. Ele prometeu que não faria. Mas não cumpriu. Promoveu vários outros encontros. Passava noites e noites em greve, mas valia à pena. A amiga sempre jurava não lhe falar mais. Nunca cumpriu.
Foram tantas vezes que as duas começaram a travar conversas amigáveis – que chegaram a até cinco frases cada uma! Num desses encontros, no fundo, já esperados, chegaram a ficar conversando por mais de meia hora. Em casa ela comenta: “Sabe aquela tua amiga?”
- Qual?
- Você sabe…
- Ah…, o que tem?
- Até que tem uma cabeça legal, concordamos em vários pontos. Foi bom ter conversado com ela.
Ele não perguntou nem falou mais nada. Foi dormir com um sorrizinho de vitória no rosto. Ouviu quase que o mesmo comentário da outra. Também não disse uma palavra. Quis dar tempo ao tempo.
No fim de semana será seu aniversário. Pensou se chama ou não a amiga para o almoço. Antes de perguntar se seria conveniente, a esposa fala: “Por quê não convida sua amiga? Afinal, é o seu aniversário.” Chamou. Ela a princípio relutou, mas disse que iria.
No dia, depois que a convidada apareceu, ele que teve que recepcionar as outras pessoas e servir todo mundo. Sua esposa ficou conversando com ela todo o tempo, a essas alturas, amiga dos dois. Mostrou a casa, todas as fotos que existiam, deram boas risadas. Quem se sentiu meio chateado agora foi ele. Se sentiu meio rejeitado, com ciúmes das duas. Mas fazer o quê, não era isso que queria?
Descobriram coisas maravilhosas uma sobre a outra. Esqueceram os defeitos e tudo mais que as faziam se odiar. Tornaram-se grandes amigas. Ela agora freqüenta a casa quase todos os dias. Ele está satisfeito, tem as duas perto de si como queria, sendo que, às vezes, se sente meio jogado. É só reclamar e receber carinho dobrado, mas logo o esquecem e voltam às conversas, algumas confidenciais.
Começaram a sair juntas. Sem ele. Cinema, choppinho, praia. Parecem irmãs gêmeas que se adoram. Ele começou a se sentir sozinho. E com razão. Até sexo diminuíra a freqüência. A esposa começou a ficar mais séria dentro de casa, as visitas da amiga começaram a escassear, embora saíssem muito juntas. Sua antiga confidente não está mais ligando para ele, como fazia antes. Quando ele liga ela é fria, distante.
Ele está preocupado. E curioso. A curiosidade logo se desfez, se transformando em estupefação. A esposa lhe contou o que estava acontecendo. Ela estava saindo de casa, iria para a casa da amiga, que a essas alturas não era só amiga. Estavam apaixonadas e iriam morar juntas.
A amiga lhe pediu para que continuassem amigos. Ele não quis.
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Na mesma linha: As guerras do Sexo
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Por Declev Dib-Ferreira em 01/11/2007
- Pois é, rapaz… eu lembro bem da minha infância…
- E eu gostaria de não lembrar.
- Lembro-me dos carinhos da minha mãe, das cantigas em seu colo…
- E eu das surras que ela me dava, dos palavrões que gritava.
- Lembro-me de meu pai chegando do trabalho, sempre cheio de presentes, distribuindo beijos em todo mundo…
- E eu do meu pai chegando do bar, sujo e bêbado, distribuindo porrada na gente.
- Lembro-me da comida da minha mãe – ainda sinto o aroma – das nossas fartas e grandes ceias aos domingos…
- E eu de como sentia fome – ainda sinto a dor.
- Lembro-me da escolinha que frequentava, dos primeiros amiguinhos…
- E eu de vender doces nos sinais, e das primeiras brigas pra me defender dos mais velhos.
- Lembro-me dos meus brinquedos – tinha um quarto enorme cheio deles…
- E eu de dois ou três – velhos e quebrados, que achei no lixo.
- Lembro-me de como era boa a vida de criança – que saudade! – sem preocupações, obrigações…
- E eu só me lembro das preocupações, das obrigações.
- Lembro-me de como era feliz!
- E eu de como invejava as outras crianças.
Final 1:
- Pois então seu doutor, sinto muito, eu já tô indo… não posso mais ficar aqui de conversa mole não, tenho que lavar outros carros.
Final 2:
- Pois é, doutor! Já falamos demais! Vai passando aí o relógio e a carteira que ainda tenho muito serviço pra fazer!
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Por Declev Dib-Ferreira em 30/10/2007
Ele não tem tempo para nada, é um empresário, muito ocupado em ganhar milhões, acorda às 5:30 da manhã, toma um banho rápido, fuma um cigarro, bebe uma xícara de café, fuma outro cigarro já saindo para o trabalho, vai de helicóptero para não ficar preso em engarrafamentos, tem a agenda lotada e três secretárias para tomarem conta de seu precioso dia, mesa cheia, muitos relatórios a ler, outros a fazer, reuniões, reuniões, reuniões, almoça sempre com pessoas com assuntos pendentes - assim resolve problemas ao mesmo tempo que come -, no jantar faz o mesmo, depois ainda resolve mais algumas coisas nos escritórios das filiais e vai para casa dormir: 1 hora da manhã, a mulher já está deitada, o filho também, nos fins de semana, quando o encontra, seu garoto o chama para algum lugar onde gostaria de ir com o pai e sempre ouve as mesmas respostas: “hoje não dá”, “Neste fim de semana não, no outro prometo te levar”, “Puxa, tenho uma viagem de negócios marcada…” , a esposa quase não o vê, nem sei quantas vezes fazem amor por mês – é um assunto meio íntimo, sabe? – mas garanto serem poucas, a mãe ligava toda semana cobrando o almoço prometido e não cumprido, desistiu depois que ele passou a não atendê-la, pedindo para as secretárias darem desculpas como: “está em reunião”, “avisou que liga mais tarde”, “pediu para deixar recado”, certo dia sentiu uma pontada no peito, a dor foi ficando mais forte, sentiu uma dormência no braço, chamou a secretária, e esta o pronto-socorro: infarto, internação, exames… “mas não posso ficar!”, “daqui você não sai!”, disse o médico, assim que souberam foram para o hospital esposa, filho, mãe, todos desesperados, querendo saber notícias, está fora de perigo, mas deve ficar internado para observação e para fazer outros exames, levará tempo, “tempo? não tenho!” … mas teve que ter…
Na primeira semana de hospital ele descobriu o que é isso… Viu televisão… Namorou a esposa (namoro “leve”, beijinhos, abraços)… Conversou com a mãe… Reviu irmãos e diversos amigos… Até conheceu melhor o filho… Jogaram damas… Ajudou-o a fazer os deveres de casa… As visitas iam diariamente… Mais pela saudade de vê-lo do que pela doença… Ele gostou… Isso que era ter tempo?… É Bom!… Leu vários livros… Pensou na vida e em si mesmo…
Dez dias depois obteve alta… Não foi nada sério… não precisava de operações… os medicamentos surtiram efeito, graças a Deus, disseram… “Vê se tem uma vida mais saudável…”, alertou o médico… “Vou tentar…”, respondeu….
Ao chegar em casa uma de suas secretárias ligou: “Está tudo atrasado por aqui sr., uma bagunça!”, ele foi para o escritório e não parou mais até o próximo infarto.
Fatal…
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