Textos para mês 11/2007

São Francisco

Por Declev Dib-Ferreira em 10/11/2007

Essa foi feita numa viagem pra Goiás, quando passamos pela Serra da Canastra, em Minas - ambiente de cerrado - e bebemos água da nascente do São Francisco. Em homengem à Edu e Carol:

Árvore retorcida
Pela dor do fogo
Não se deixa abater
Nasce de novo
     No chão carvão
     Da última queimada
     Brotam folhas
     Verdes de esperança
Cobrindo o chão
Barro cor de brasa
Tons de verdes matos
Ao vento, uma dança
     Pingos de cores
     Enfeitam a visão
     De flores e amores
     Como um céu no chão
E a água do São Francisco
Límpida e gelada
Lava nossa alma
Onde já não dói mais nada

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Aos fumantes

Por Declev Dib-Ferreira em 10/11/2007

Não!
Não tenho um isqueiro,
Tenho uma caneta!
Eu não fumo,
Eu escrevo…
Eu não trago,
Eu escarro letras e palavras e frases e textos
Eu não apago a guimba,
Eu acendo a chama que queimará tua alma
Eu não tenho isqueiro
Porque eu não fumo
A arma que eu tenho
Pra matar a minha angústia,
É a minha poesia!

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Presente

Por Declev Dib-Ferreira em 10/11/2007

Te desejo muita paz e felicidade…
Como se felicidade
Coubesse em uma caixinha,
Como se paz pudéssemos comprar.

Quem dera fosse tão simples
Como se pudéssemos dar de presente
Embalado em papel colorido;

Faríamos felizes quem quiséssemos…

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Tu és assim

Por Declev Dib-Ferreira em 10/11/2007

Tu és o espinho cravado em meu peito
Tu és a farpa em meu dedo
Tu és um dia de azia sem um bicabornato por perto
A ressaca da manhã seguinte transportada ao deserto

Tu és a dor que há em cada amor
A força que faz o pão cair de manteiga pra baixo
A barata voadora que entra no quarto escuro

Tu és o muro que separa dois mundos
O chão imundo em que tropeço e caio
Tu és um raio que cai duas vezes no mesmo local

Eu peço açúcar, tu me dás sal
Eu peço um beijo, etc. e tal
Tu não me dás nada,
Tal qual quem nega água

Tu és assim
Assim tu fostes
Passastes por mim de dia
Me deixando só à noite…

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Entrevista com o louco

Por Declev Dib-Ferreira em 04/11/2007

Hãn? Meu nome? Não sei… não lembro mais…

Hãn? Minha casa? É… o hospício não é tão ruim. Aqui me sinto protegido; é sossegado, tirando os berros casuais de alguns colegas.

Hãn? Sim, sim, sou bem tratado.

Hãn? Visitas? De vez em quando recebemos as visitas de algum anjo. No gramado há alguns unicórnios e duendes, mas não são todos que conseguem vê-los.

Hãn? Solidão? Não, não… eu tenho um bichinho de estimação, o Gotchgotch. Ele não é daqui, é de outro planeta; caiu aqui no terreno numa cápsula espacial.

Hãn? Ele come ramiscabrini com molho menesquênsis.

Hãn? Quando cheguei aqui? Há alguns milênios, acho…

Hãn? Porquê vim para cá? Não sei, acho que me achavam normal demais para ficar no mundo louco lá de fora.

Hãn? As últimas coisas de que me lembro antes de vir prá cá? Não me lembro de muitas coisas não… lembro de uma mulher… e lembro de que eu falei um dia: “nem que seja a última coisa que eu faça, eu ainda vou compreender essa mulher!”…

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Na mesma linha:

a) http://www.fiapodejaca.com.br/2007/11/03/a-entrevista/

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(in)Segurança - Curto e grosso

Por Declev Dib-Ferreira em 03/11/2007

- Ei cara, tô com medo!
- O que é isso amigo? Não precisa ter medo!
- Sei lá… essa rua tá tão deserta…
- Não tem perigo não, sempre tem polícia passando por aqui.
- Hiiiii…
- Tá devendo é?!?
- Eu não! Tô limpo, nunca roubei, nunca trafiquei, não sou colarinho branco, tenho casa, família e trabalho e ainda freqüento a igreja!
- Eu sei, eu sei, eu te conheço… e você sabe que também sou assim, por isso não devemos ter medo. Vamos?

E eles foram por aquela rua escura e deserta, temendo topar com algum assaltante ou animal do gênero.

- Olha lá! Eu não disse?! Vêm vindo dois policiais; não disse que era seguro?
- EI, VOCÊS AÍ; QUIETOS!!!
- …

“Encontrados dois corpos ontem de madrugada cobertos de balas. A polícia desconfia de tentativa de assalto ou guerra de traficantes ou queima de arquivo ou balas perdidas ou suicídio…”

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Na mesma linha:

a) http://www.versoeprosa.com/2007/09/23/capitao-nascimento-para-governador/

b) http://parededebanheiro.blogspot.com/2007/08/eu-e-polcia.html

c)http://mrrogens.blogspot.com/2007/09/ato-pblico-contra-violncia-e-impunidade.html

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Viagem astral na Terra

Por Declev Dib-Ferreira em 03/11/2007

Estava deitado na beirada da piscina, de braços abertos. Olhava o céu azul com um sentimento misto de admiração pela beleza, e curiosidade e espanto pelos mistérios. Era final de tarde e o sol já estava por sumir no horizonte e o tempo estava bem fresco. A minha posição sugeria que eu queria abraçar aquele azul. Era um gesto inconsciente, mas que expressava o que eu estava sentindo naquele momento.

O sol se pôs e o céu aos poucos escureceu. Havia apenas algumas nuvens esparsas, algumas mais ao horizonte, reluzindo ainda a luz do sol, me saudando com um magnífico espetáculo de cores.

Uma previsível sonolência começou a tomar conta de meu corpo. Meus olhos foram ficando mais pesados e cada vez mais difícil mantê-los abertos. Fui sentindo meu corpo cada vez mais leve, uma leveza gostosa, incontrolável. Eu senti que flutuava; uma ponta de medo que surgiu foi logo dissolvida pela sensação indescritível de liberdade que sentia. Não estava entendendo, mas estava gostando. Me virei lentamente e, ao olhar para baixo, levei um susto, mas estava tudo explicado. Eu vi o meu corpo a cerca de meio metro de mim mesmo, deitado na mesma posição que estava anteriormente. Na verdade eu não estava flutuando, mas o meu espírito havia se separado de meu corpo e eu estava consciente. Me vi subindo, subindo. Percebi que meus dois “eus” continuavam ligados por um brilhante “cordão umbilical”, de umbigo a umbigo.

Continuei a subir devagar, vendo o meu corpo imóvel cada vez mais longe, a piscina ao meu lado cada vez menor, refletindo a luz das estrelas e da lua em sua superfície agora escura. À medida que subia conseguia observar mais coisas ao redor de onde estava deitado. Vi as casas da vizinhança, as árvores, as ruas, as pessoas, inclusive dois amigos, que, certamente não me viram. Vi as luzes das ruas e das casas ficarem cada vez mais fracas, mais fracas, até adquirirem aparência de vaga-lumes. Continuei subindo.

Passaram por mim dois pássaros, voando lado a lado. Creio que perceberam minha presença, pois senti que se afastaram, um pouco assustados. Eu já estava à altura das nuvens. Parecia que podia sentir as gotículas de água tocando em mim, de tão sensível que estava.

Passou um avião, um pouco longe, mas o suficiente para ver alguns detalhes, como as janelinhas com as luzes acesas lá dentro, e uma aeromoça com seu uniforme azul e rabo de cavalo preso por uma fita vermelha. Creio que minha visão se aguçou um pouco. Com certeza os passageiros não notaram minha presença.

Já estava a uma altura que notava a circunferência da terra. Podia ver perfeitamente o horizonte bem delineado e recurvado. Neste instante foi que me surpreendi com o nosso planeta. É um astro flutuando no espaço. Não tem começo, meio ou fim. Não tem em cima ou embaixo. Não tem norte ou sul. Após a visão que tive, privilegiada por sinal, percebi que se viramos os globos terrestres ou os mapas que temos utilizado como padrão mundial, ainda assim continuará correto, pois a terra, vista lá de cima, é única, é linda, é perfeita. Não existe um sistema no universo que indicava se eu a estava olhando de cabeça para baixo ou não. Não existe em cima ou embaixo para o universo, ele simplesmente existe, ele simplesmente é. Lá de cima perdi a noção dos pontos cardeais.

Comecei a girar meu corpo lentamente, vendo a terra primeiramente na posição tradicional, como a conhecemos nos globos. Depois de lado, depois de cabeça para baixo e descobri que é a mesma coisa, não há parâmetros. A terra simplesmente está ali, flutuando. Ela que nos dá sustento, nos dá chão, firmeza, ela mesma não tem o seu sustento. Descobri que o sustento da terra somos nós mesmos. Nós que a equilibramos, pisando aqui e ali, fazendo coisas boas deste lado do mundo e naquele outro também, sem distinção de norte ou sul, leste ou oeste.

A vida estava continuando lá embaixo, eu sabia, mas não me importava. Tentava apenas compreender o universo, e forçava a vista ao longe, tentando achar um fim, uma explicação, mas em vão. O mistério do universo é muito maior do que nós mesmos. É muito maior do que a terra e não nos cabe tentar decifrá-lo. Essa minha “viagem” valeu, pois pude aprender um pouco sobre o planeta que nos dá a vida. Pude compreender que ele somos nós mesmos, que dele fazemos parte; e que podemos ser nele o câncer que destruirá sua vida, ou a proteína que irá construí-la, dependendo de nossos atos.

Após esta conclusão eu abri os olhos, e estava novamente em meu corpo físico.

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Dindin:

a) Quer aprender mais sobre viagem astral? Procure livros e compare seus preços, com o buscaPé.

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Na mesma linha:  

a) http://blog.controversia.com.br/2007/07/28/uma-terra-sem-humanos/ 

b) http://lauravive.blogspot.com/2007/04/o-dia-da-terra.html

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O cara, a amiga e a esposa

Por Declev Dib-Ferreira em 02/11/2007

            Ele é apaixonado pela esposa. Vivem bem, têm casa, carro, boa comida, freqüentam bons restaurantes, cinema, teatro. Nada de muito luxo, mas uma vida estável. Não têm filhos, mas pretendem ter, não um, mas três. É para ter uma família grande, estão acostumados com isso. Muitos irmãos, tios e primos de ambas as partes.

            Ele tem também uma grande amiga. É uma amizade meio paixão, sei lá. Se gostam muito. Nunca aconteceu nada, creio que nem desejo por parte dos dois. São como irmãos que se dão muito bem. Ela sabe tudo da vida dele, seus desejos, anseios, dúvidas, seus medos, tudo. E vice-versa. Se conheceram bem pequenos e logo de início surgiu essa grande amizade. Já dormiram até na mesma cama, e podiam dormir mesmo abraçados, pois não acontecia nada.

            É lógico que dormir na mesma cama não acontece mais depois que ele casou. Sua esposa, para seu desgosto, odeia esta amiga. E vice-versa. É uma situação complicada. As duas nem se olham. Se uma sabe que a outra estará em tal lugar, não vai. Como explicar para a amiga que, como as duas não se gostam, ele nem sempre estará disponível como antes estava, para aquelas longas conversas, aqueles “porres + choradeiras” que só dois grandes amigos sabem como é? E como convencer a esposa da falta que ele também sente?

            Esposa, amiga. Amiga, esposa. Essas duas mulheres o estavam enlouquecendo. E de tanto enlouquecer, fez o que se espera de um louco: uma loucura. Pelo menos foi o que pensaram os conhecidos quando souberam. Convidou a esposa para ir a uma festa na qual a amiga estaria. Cansou de se dividir. Resolveu que teriam que se entender. Teriam que se falar – ou se aturarem em um mesmo ambiente, pelo menos. Quando a convidou, a primeira pergunta da esposa, em tom de ironia,  foi: “sua amiguinha vai?”. “É claro que não!”, respondeu.

            Foram. Chegaram antes da “amiguinha”. Estavam bebericando algo quando esta chegou. Ouviu-se um murmurinho, pessoas cochichando, espantadas com o final que poderia ter. Já tinham visto algo semelhante e não gostaram nem um pouco. Alguns ficaram até meio gelados. Ele, o amigo de uma e esposo da outra, foi o que mais gelou. Sua mulher estava conversando distraidamente, de costas para a entrada principal quando virou-se e a viu entrando. O copo caiu de sua mão, chamando a atenção da outra que, quando a viu, quis ir embora, impedida por amigos. A esposa, depois do limpa daqui, enxuga dali, quis dar um escândalo, gritar com o marido, sair correndo, mas se conteve. Tiveram que se encontrar. Antes de se encararem, as duas olharam o responsável pelo encontro como se quisessem fuzilá-lo. Chegou a hora: “oi…”, “oi, tudo bem?”, “tudo”.

            E foi só. Todo esse diálogo foi feito de semblantes fechados e singelos balançares de cabeça. A festa transcorreu na maior serenidade, uma aqui, outra lá, na medida do possível. Ele até estranhou não tocarem no assunto… na festa. Em casa levou o maior puxão de orelha desde o casamento. Não deu uma palavra, deixou a esposa desabafar. Naquela noite não teve nada. Como castigo.

            No dia seguinte ainda ouviu um pequeno sermão da amiga pelo telefone. Ela jurou que se fizesse isso de novo, cortaria relações. Ele prometeu que não faria. Mas não cumpriu. Promoveu vários outros encontros. Passava noites e noites em greve, mas valia à pena. A amiga sempre jurava não lhe falar mais. Nunca cumpriu.

            Foram tantas vezes que as duas começaram a travar conversas    amigáveis – que chegaram a até cinco frases cada uma! Num desses encontros, no fundo, já esperados, chegaram a ficar conversando por mais de meia hora. Em casa ela comenta: “Sabe aquela tua amiga?”

            - Qual?

            - Você sabe…

            - Ah…, o que tem?

            - Até que tem uma cabeça legal, concordamos em vários pontos. Foi bom ter conversado com ela.

            Ele não perguntou nem falou mais nada. Foi dormir com um sorrizinho de vitória no rosto. Ouviu quase que o mesmo comentário da outra. Também não disse uma palavra. Quis dar tempo ao tempo.

            No fim de semana será seu aniversário. Pensou se chama ou não a amiga para o almoço. Antes de perguntar se seria conveniente, a esposa fala: “Por quê não convida sua amiga? Afinal, é o seu aniversário.” Chamou. Ela a princípio relutou, mas disse que iria.

            No dia, depois que a convidada apareceu, ele que teve que recepcionar as outras pessoas e  servir todo mundo. Sua esposa ficou conversando com ela todo o tempo, a essas alturas, amiga dos dois. Mostrou a casa, todas as fotos que existiam, deram boas risadas. Quem se sentiu meio chateado agora foi ele. Se sentiu meio rejeitado, com ciúmes das duas. Mas fazer o quê, não era isso que queria?

            Descobriram coisas maravilhosas uma sobre a outra. Esqueceram os defeitos e tudo mais que as faziam se odiar. Tornaram-se grandes amigas. Ela agora freqüenta a casa  quase  todos  os dias. Ele está satisfeito, tem as duas perto de si como queria, sendo que, às vezes, se sente meio jogado. É só reclamar e receber carinho dobrado, mas logo o esquecem e voltam às conversas, algumas confidenciais.

            Começaram a sair juntas. Sem ele. Cinema, choppinho, praia. Parecem irmãs gêmeas que se adoram. Ele começou a se sentir sozinho. E com razão. Até sexo diminuíra a freqüência. A esposa começou a ficar mais séria dentro de casa, as visitas da amiga começaram a escassear, embora saíssem muito juntas. Sua antiga confidente não está mais ligando para ele, como fazia antes. Quando ele liga ela é fria, distante.

            Ele está preocupado. E curioso. A curiosidade logo se desfez, se transformando  em  estupefação. A  esposa  lhe  contou o que estava acontecendo. Ela estava saindo de casa, iria para a casa da amiga, que a essas alturas não era só amiga. Estavam apaixonadas e iriam morar juntas.

            A amiga lhe pediu para que continuassem amigos. Ele não quis.

 

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Na mesma linha: As guerras do Sexo

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Amor é para essas coisas…

Por Declev Dib-Ferreira em 02/11/2007

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Cativar

Por Declev Dib-Ferreira em 02/11/2007

Cativas, mas
Cativar
Não é pôr
Em cativeiro;
     Cativas, mas
     Cativar
     Não se compra
     Com dinheiro;
Cativas, pois
Cativar
É um verbo
Por inteiro;
     Cativas, mas
     Cativar
     É devagar
     E sorrateiro;
Cativas, pois
Cativar
É reconhecer
Pelo cheiro;
     Cativas, pois
     Cativar
     É amor
     Verdadeiro.

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Na mesma linha:

a) Cativando - Silvia Cohin e Fernando Peixoto

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