Viagem astral na Terra

Por Declev Dib-Ferreira em 03/11/2007

Estava deitado na beirada da piscina, de braços abertos. Olhava o céu azul com um sentimento misto de admiração pela beleza, e curiosidade e espanto pelos mistérios. Era final de tarde e o sol já estava por sumir no horizonte e o tempo estava bem fresco. A minha posição sugeria que eu queria abraçar aquele azul. Era um gesto inconsciente, mas que expressava o que eu estava sentindo naquele momento.

O sol se pôs e o céu aos poucos escureceu. Havia apenas algumas nuvens esparsas, algumas mais ao horizonte, reluzindo ainda a luz do sol, me saudando com um magnífico espetáculo de cores.

Uma previsível sonolência começou a tomar conta de meu corpo. Meus olhos foram ficando mais pesados e cada vez mais difícil mantê-los abertos. Fui sentindo meu corpo cada vez mais leve, uma leveza gostosa, incontrolável. Eu senti que flutuava; uma ponta de medo que surgiu foi logo dissolvida pela sensação indescritível de liberdade que sentia. Não estava entendendo, mas estava gostando. Me virei lentamente e, ao olhar para baixo, levei um susto, mas estava tudo explicado. Eu vi o meu corpo a cerca de meio metro de mim mesmo, deitado na mesma posição que estava anteriormente. Na verdade eu não estava flutuando, mas o meu espírito havia se separado de meu corpo e eu estava consciente. Me vi subindo, subindo. Percebi que meus dois “eus” continuavam ligados por um brilhante “cordão umbilical”, de umbigo a umbigo.

Continuei a subir devagar, vendo o meu corpo imóvel cada vez mais longe, a piscina ao meu lado cada vez menor, refletindo a luz das estrelas e da lua em sua superfície agora escura. À medida que subia conseguia observar mais coisas ao redor de onde estava deitado. Vi as casas da vizinhança, as árvores, as ruas, as pessoas, inclusive dois amigos, que, certamente não me viram. Vi as luzes das ruas e das casas ficarem cada vez mais fracas, mais fracas, até adquirirem aparência de vaga-lumes. Continuei subindo.

Passaram por mim dois pássaros, voando lado a lado. Creio que perceberam minha presença, pois senti que se afastaram, um pouco assustados. Eu já estava à altura das nuvens. Parecia que podia sentir as gotículas de água tocando em mim, de tão sensível que estava.

Passou um avião, um pouco longe, mas o suficiente para ver alguns detalhes, como as janelinhas com as luzes acesas lá dentro, e uma aeromoça com seu uniforme azul e rabo de cavalo preso por uma fita vermelha. Creio que minha visão se aguçou um pouco. Com certeza os passageiros não notaram minha presença.

Já estava a uma altura que notava a circunferência da terra. Podia ver perfeitamente o horizonte bem delineado e recurvado. Neste instante foi que me surpreendi com o nosso planeta. É um astro flutuando no espaço. Não tem começo, meio ou fim. Não tem em cima ou embaixo. Não tem norte ou sul. Após a visão que tive, privilegiada por sinal, percebi que se viramos os globos terrestres ou os mapas que temos utilizado como padrão mundial, ainda assim continuará correto, pois a terra, vista lá de cima, é única, é linda, é perfeita. Não existe um sistema no universo que indicava se eu a estava olhando de cabeça para baixo ou não. Não existe em cima ou embaixo para o universo, ele simplesmente existe, ele simplesmente é. Lá de cima perdi a noção dos pontos cardeais.

Comecei a girar meu corpo lentamente, vendo a terra primeiramente na posição tradicional, como a conhecemos nos globos. Depois de lado, depois de cabeça para baixo e descobri que é a mesma coisa, não há parâmetros. A terra simplesmente está ali, flutuando. Ela que nos dá sustento, nos dá chão, firmeza, ela mesma não tem o seu sustento. Descobri que o sustento da terra somos nós mesmos. Nós que a equilibramos, pisando aqui e ali, fazendo coisas boas deste lado do mundo e naquele outro também, sem distinção de norte ou sul, leste ou oeste.

A vida estava continuando lá embaixo, eu sabia, mas não me importava. Tentava apenas compreender o universo, e forçava a vista ao longe, tentando achar um fim, uma explicação, mas em vão. O mistério do universo é muito maior do que nós mesmos. É muito maior do que a terra e não nos cabe tentar decifrá-lo. Essa minha “viagem” valeu, pois pude aprender um pouco sobre o planeta que nos dá a vida. Pude compreender que ele somos nós mesmos, que dele fazemos parte; e que podemos ser nele o câncer que destruirá sua vida, ou a proteína que irá construí-la, dependendo de nossos atos.

Após esta conclusão eu abri os olhos, e estava novamente em meu corpo físico.

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Dindin:

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Na mesma linha:  

a) http://blog.controversia.com.br/2007/07/28/uma-terra-sem-humanos/ 

b) http://lauravive.blogspot.com/2007/04/o-dia-da-terra.html

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