Uma conversa com dois finais e dois finais

Por Declev Dib-Ferreira em 01/11/2007

- Pois é, rapaz… eu lembro bem da minha infância…
- E eu gostaria de não lembrar.
- Lembro-me dos carinhos da minha mãe, das cantigas em seu colo…
- E eu das surras que ela me dava, dos palavrões que gritava.
- Lembro-me de meu pai chegando do trabalho, sempre cheio de presentes, distribuindo beijos em todo mundo…
- E eu do meu pai chegando do bar, sujo e bêbado, distribuindo porrada na gente.
- Lembro-me da comida da minha mãe – ainda sinto o aroma – das nossas fartas e grandes ceias aos domingos…
- E eu de como sentia fome – ainda sinto a dor.
- Lembro-me da escolinha que frequentava, dos primeiros amiguinhos…
- E eu de vender doces nos sinais, e das primeiras brigas pra me defender dos mais velhos.
- Lembro-me dos meus brinquedos – tinha um quarto enorme cheio deles…
- E eu de dois ou três – velhos e quebrados, que achei no lixo.
- Lembro-me de como era boa a vida de criança – que saudade! – sem preocupações, obrigações…
- E eu só me lembro das preocupações, das obrigações.
- Lembro-me de como era feliz!
- E eu de como invejava as outras crianças.

Final 1:

- Pois então seu doutor, sinto muito, eu já tô indo… não posso mais ficar aqui de conversa mole não, tenho que lavar outros carros.

Final 2:

- Pois é, doutor! Já falamos demais! Vai passando aí o relógio e a carteira que ainda tenho muito serviço pra fazer!

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