O menino de rua

Por Declev Dib-Ferreira em 28/10/2007

Estavam voltando do restaurante, satisfeitos. Antes de chegarem ao carro avistaram a cena chocante, que deixou os dois aflitos. – “Olha Mário, coitado…” – disse a esposa. – “Oh…, você sabe que não consigo ver essas coisas Sandra!” – os olhos dele logo lacrimejaram. Ficaram por alguns instantes parados, observando aquele triste quadro urbano.

– O que vamos fazer? – ela perguntou.

– Eu não sei… me sinto tão impotente. E isso está se tornando cada vez mais normal!! – demonstrou raiva pelo que via, mas deu sinais de seguir adiante, começando a dar tímidos passos na direção do carro. Ela abaixou a cabeça e o acompanhou. Ele pôs a mão no bolso buscando a chave. Ela segura seu braço, o olha nos olhos e diz:

– Mas temos que fazer algo, alguém tem que fazer! Não podemos deixar que isso se torne uma coisa normal!

– Talvez você tenha razão… – cambaleou o marido.

– Sim! Uma cena como esta é hoje tão corriqueira, que muitas das vezes desviamos nosso caminho, mudamos de calçada e seguimos em frente, como se nada estivesse acontecendo!!

– Mas somos tão pequenos… – argumentou.

– Mas podemos fazer algo. Se cada um fizer um pouco, podemos melhorar a situação destas criaturas.

– Ora Sandra, de que adiantaria? São tantos!

– Sim, são muitos, mas podemos fazer a diferença para alguns, se não nos deixarmos simplesmente seguir adiante virando o rosto ou fechando os olhos. E se cada um que tenha condições fizer o mesmo, se todos seguirem o mesmo caminho, em um esforço conjunto faremos a diferença!

– Talvez você tenha razão…

– Sim, Tenho! – anteviu nos olhos do marido a possibilidade de fazerem algo naquele momento.

– E então, o que podemos fazer, o que você sugere?

– Vamos adotá-lo! – falou a esposa, com um sorriso tímido nos lábios.

– Mas Sandra, já temos tantas coisas, tantos compromissos… e não é nossa obrigação, podemos ajudar de outras formas…

– Não é nossa obrigação, mas temos uma obrigação moral. Temos que fazer algo, Mário, veja a situação dele…

– Pode ser… – observou a cena com mais detalhes, o que o comoveu ainda mais.

– Vamos Mário… diz que sim, vai… – fez aquele rosto infalível de quando pede algo…

– Está certo! Vamos adotá-lo!!

Ela pulou de alegria, beijou-lhe o rosto e foi em direção ao garoto que dormia. Se abaixou e pegou o filhotinho de cachorro com todo o carinho.

– Ei, ele é meu! – disse o menino, acordando assustado, saindo de baixo dos jornais.

Ela o olha com incredulidade. – “Mas você está aí, todo sujo, com esses panos imundos, esses papelões velhos… como vai criá-lo?” – argumenta.

– Ele vive comigo, na rua… – responde o menino, incerto em suas palavras.

– Então! Nós poderemos dar a ele uma vida melhor – disse a esposa –, temos uma casa com quintal, piscina, outros animaizinhos para ele brincar, poderemos dar a melhor ração… o que você acha?

O garoto pensou por alguns instantes e perguntou: “Ele vai ser feliz?”

– Claro que vai! – responde ela.

– Então pode levar…

Ela foi em direção ao marido, feliz, beijando o cachorrinho, que abanava o rabo. O garoto voltou a dormir, enxugando a lágrima que escorria dos olhos.

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Na mesma linha: http://poemasdeandreluis.blogspot.com/2007/11/os-olhos-do-mendigo.html

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    1. 13 Comentários to “O menino de rua”

    2. Por Arthur Moura Campos em 28/10/2007 | Reply

      Muito bom,
      Surpreendente. Ele mostra que realmente as pessoas só olham viram o rosto e seguem seu caminho.
      Parabéns

    3. Por Alexandre L. Kirovsky em 29/10/2007 | Reply

      Fico muito feliz em vê-lo em atuação novamente meu caro amigo. Espero que possamos ainda nos rever num dos famosos churrascos de sua casa…
      Fique com Deus.
      Grande abraço!!!!

    4. Por Fábio Malta em 29/10/2007 | Reply

      Vida inteligente na internet! Pretendo reativar minha página, com os devidos links para as suas. É coisa muito fina. Grande abraço

    5. Por Karin Kolln em 30/10/2007 | Reply

      Oi Declev! Bacana seu texto!

      Beijo!

    6. Por declev em 30/10/2007 | Reply

      Obrigado Karin. Valeu Bibinho. Como vai Kirovsky? Obrigado Arthur, continue escrevendo. Tamos aí.

    7. Por Marcelo Salgueiro em 31/10/2007 | Reply

      Estava com saudades de ler textos intligentes como os seus.
      Como vai meu amigo?
      Um grande abraço

    8. Por dirce Lima em 31/10/2007 | Reply

      É… hoje,dos apartamentos, se escuta muito mais os latidos dos cachorros do que risos de crianças. Brincadeirinha!!!!!! nenhuma indireta para o casal.
      Muito legal.E, apesar de surpreendente, caracteriza bem o sentimento, ou a falta de, que as pessoas sentem quando observam cenas que já fazem parte do cotidiano das ruas.

    9. Por declev em 31/10/2007 | Reply

      Fala Marcelo! Eu só descobri quem é depois de ver o emial com o “pqt”! Por ande andas? Bom te “ver” por aqui.
      Abraços.

    10. Por declev em 31/10/2007 | Reply

      É Dirce… pelo jeito vai demorar um pouco pro latido se misturar a choros de bebês por aqui…

    11. Por Andre L. Soares em 01/11/2007 | Reply

      Maravilhoso, surpreendente, bem escrito e dotado de refinado senso crítico. Vou linkar seu blog ao meu e, como nossos textos de hoje tratam do mesmo tema, deixarei também um link de chamada para esse texto aqui, pois ele precisa ser lido pelo maior número possível de pessoas. Obrigado por me proporcionar essa excelente leitura. Grande abraço!

    12. Por Débora em 01/11/2007 | Reply

      Declev,

      Muito legal o seu texto, ele mostra uma realidade que poucos prestam atenção.

    13. Por Andréa Motta em 04/12/2007 | Reply

      Excelente texto!
      meus sinceros Parabéns.
      Abraços,
      Andréa

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    2. Fev 10, 2008: Retornando ao Brasil e respondendo aos comentários | Diário do Professor

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