Os apertos desta vida
Depois que passa nós rimos. Na hora é que é a coisa. Provavelmente são as histórias de vexame e aperto (aperto empregado aqui em termos gerais) mais engraçadas de se ouvir, mas as mais desagradáveis de se passar. Eu já passei por isso, quer dizer, já fui várias vezes até o aperto, mas nunca cheguei às conseqüências do vexame.
Para quem nunca passou por isso, vou tentar colocar em palavras que sensação é essa que quem já sentiu, garante que é uma das mais desagradáveis. Primeiro você sente aquela pontadinha no estômago e pensa “ah, não há de ser nada, só um punzinho, já vai passar”. (Ah, está rindo é?, pois saiba que é isso mesmo!). Aí você solta unszinhos bem devagar para não fazer barulho que você não é besta, sai do lugar disfarçadamente para o pessoal não desconfiar que foi você, faz cara de sonso e ainda abana o nariz fazendo cara feia para mostrar para todo mundo que você também não gostou de terem feito aquilo. “Como pode? É muita cara de pau!”, ainda diz.
Depois, quando você vê que a vontade não está passando e, muito pelo contrário, piorando, começa a ficar nervoso. Se você está indo para casa ou outro lugar que tenha um banheiro salvador limpo e sossegado, você vai mais calmo. Mas se você está na rua, longe da sua privadinha de estimação, aí é o terror. Principalmente se está num ônibus, porque se não sabe, você com dor de barriga num ônibus, com certeza terá um engarrafamento. Neste caso é bom você não andar armado, pois se daria um tiro na cabeça. No calor de quarenta graus do Rio, você começa a sentir frio; sua barriga, doendo, começa a empurrar involuntariamente o que quer sair cada vez com mais força; você, voluntariamente, começa a prender a saída e tenta empurrar para cima; começa a guerra entre a natureza e a sua pessoa; você começa a amaldiçoar a fraqueza do corpo humano; não vê nem o decote nem a mini-saia daquela boazuda que passou ao seu lado; só vem à sua mente a figura simpática de uma singela privada; seu corpo começa a perder temperatura, você sente mais frio, seus pêlos, desde o dedão do pé até os cabelos começam a se eriçar - os pêlos do braço são os mais atingidos; você começa a suar frio desesperadamente - e não importaria se você estivesse em pleno inverno do Alaska, pois suaria da mesma forma; você começa a imaginar (ou a perceber, sei lá) que todos estão olhando para você, todos estão sabendo que você está se contorcendo todo e torcendo as pernas para ver se fecha mais a saída…
UFA! Assim vai até que você consiga finalmente sentar naquela linda cadeirinha de cerâmica. Ou não…
Como eu disse, nunca cheguei às vias do vexame, mas como todo mundo, tenho casos e mais casos de amigos e conhecidos que passaram por isso. Como aquele que estava na rua, teve dor de barriga e não pôde esperar. O escabroso é isso: quando você não pode esperar!! Ele não vacilou, foi para um canto bem escondido (com certeza não havia um banheiro pelas redondezas), baixou as calças e não teve tempo de pensar em mais nada, parece que desceu tudo de uma vez. Talvez um quilo e meio, por aí. Aaaah… o alívio, a melhor sensação que existe. A melhor coisa que existe quando se está com fome é o alívio de um prato de comida, quando se está com sede, um copo d’água, quando se está com sono, dormir, e quando se tem dor de barriga, defecar. Não sei bem como ele se limpou, ou se é que se limpou, mas nessas horas até nota de cem reais serve. Acabou!, ele pensou. Levantou, subiu as calças e quando colocou… blergh!… ele sentiu algo estranho e percebeu que tinha feito tudo dentro das calças! Não sei como se saiu dessa…
Tem aquele outro amigo meu que teve dor de barriga na rua, foi pegar o ônibus para ir para casa e, como já estava bem na beirola, ao levantar a perna para subir no sempre elevadíssimo degrau do ônibus, BLOSH!, se cagou todo (desculpem a expressão senhoras, mas foi isso mesmo). Vocês sabem como esses ônibus são altos, não teve jeito. Ele sentou na última cadeira, de frente para a roleta, já com o dinheiro contadinho na mão. “Hummm, como está fedendo…” as pessoas começaram a reclamar. “Hummm, é mesmo!” disse ele, com cara de nem é comigo, olhando a sola do sapato para verificar se não foi ele que pisou na caca. Quanto mais as pessoas reclamavam, mais ele reclamava junto. Quando chegou no ponto dele, assim que o ônibus parou, correu para roleta, jogou o dinheiro para o trocador e correu para porta de saída. Ainda deu para ouvir uma mulher gritando e apontando lá de trás: “É ELE QUE TÁ CAGADO!!!”
A história mais vexamosa que eu já ouvi, soube através de uns amigos de Belo Horizonte que juram que é verdadeira. É mais uma daquelas histórias de Belo Horizonte que se confundem com a realidade e se transformam em lendas urbanas. Foi lá o namorado na casa da moça conhecer os pais, vós, irmãos, empregada de vinte anos na casa quase irmã de criação, gatos, cachorros, etc. Família toda reunida, pão de queijo, jantar sendo servido, conversas, quê que cê faz?, uai, essas coisas. Bateu uma dor de barriga no pobre coitado. Primeira vez na casa da família da namorada e já vai à privada feder a casa toda!… ficou com vergonha de pedir para ir ao banheiro. “Tem algum lugar que eu possa lavar as mãos?” perguntou. “Claro, pode ir ali, naquela porta”. Crente que o mandariam para um banheiro com tudo dentro, foi, fechou a porta rápido e já ia desesperado abaixando as calças quando percebeu que só havia a pia. Afinal, ele pediu para lavar as mãos… Bateu o desespero. Pensou, pensou, e resolveu fazer na pia mesmo. Deu um jeito com as pernas, levantou daqui, subiu ali e AAAHHHH… o alívio! “Agora tenho que limpar essa sujeira”, pensou. Abriu a torneira e constatou horrorizado que não havia água no recinto. Não sei se vocês conseguem, mas eu não consigo imaginar o que passou pela cabeça desse pobre rapaz ao deparar com a cena tragicômica que ele mesmo havia se metido. Bateram na porta: “Fulano, esquecemos de te avisar que aí está sem água, vai lá no banheiro…”
“Agora não preciso mais…”